Exemplos Múltiplos de Inserção Social

blog_acervo

No último domingo, dia 20, tivemos o feriado da Consciência Negra. A data foi escolhida porque se acredita que Zumbi dos Palmares tenha morrido num 20 de novembro, mas do ano de 1695. É uma ocasião mais do que propícia para pensarmos em como todos nós, brasileiros, podemos nos inserir de forma igualitária na sociedade brasileira.

Uma data tão inspiradora como o dia da Consciência Negra remete diretamente para um dos álbuns de formandos que está no nosso Centro de Memória, no Largo São Francisco: trata-se do álbum da segunda turma de contadoras da Escola de Commercio “Alvares Penteado”, de 1918. De forma pioneira no mundo, as mulheres começaram a estudar no Curso Especial Feminino, que formava guarda-livros e auxiliares de comércio, a partir de 1909. Nessa época, havia exigência de uniforme: saia verde e blusa branca, e o período em que elas estudavam era à tarde. Os homens vinham ao Largo à noite.

Ao folhear o álbum, encontramos Maria Leal, uma mulher negra, nascida em São Paulo, em 16 de abril de 1899. Ela se matriculou no curso em 1916, tendo se formado guarda-livros três anos depois. A profissão contábil, antigamente chamada de guarda-livros, existe no Brasil desde 1870, tendo sido criada a partir de um decreto assinado por Dom Pedro II. Nossa ex-aluna estudou durante esse tempo matemática, português, francês, inglês, datilografia, história e, claro: contabilidade!

15086290_10154820408502340_927801725_nO mais interessante é que em 1951 Maria Leal voltou à FECAP para pedir “sua vida escolar”, o que chamamos hoje em dia de histórico escolar. Isso porque ela iria matricular-se na Faculdade de Filosofia. Mesmo com mais de 50 anos, ela buscava conhecimento e saber nos estudos.

Nossa ex-aluna viu muitas coisas acontecerem no Brasil, como a eleição da primeira prefeita, Alzira Soriano de Souza, no município de Lages-RN, em 1927; a instituição do voto feminino na década de 30, e a primeira atleta a participar dos jogos olímpicos, Maria Lenk, em 1932. Além de todas essas conquistas femininas, ela também viveu no mesmo momento que a Revolta da Chibata estourou no Rio de Janeiro, em 1910; viu, em 1931, o primeiro ministro negro do Supremo Tribunal Federal do Brasil ser nomeado, Hermenegildo Rodrigues de Barros, e também presenciou a aprovação da Lei Afonso Arinos, em 1951, que proíbe a discriminação racial no Brasil.

É com o exemplo de Maria Leal que gostaríamos de fazer o leitor pensar sobre a inserção dos negros, das mulheres e de muitos outros grupos que ainda são frequentemente preteridos em nossa sociedade. Mesmo vivendo em um Brasil tão diferente e distante do nosso, ela não se intimidou e buscou estudar. Ela foi acolhida em nossa Instituição, que já contava com classes heterogêneas, com pessoas vindas de diversos lugares, com histórias de vida e experiências muito diferentes.

Acreditamos que apenas assim conseguiremos formar mais “Marias Leais”, buscando sempre se aproximar ainda mais do que diz nossa visão institucional: “Ser um centro de excelência em ensino e geração de conhecimento na área de negócios, associando o rigor científico à aplicação dos conhecimentos e formando profissionais com princípios éticos transformadores do processo social, com visão humanística, crítica e reflexiva”.

A construção de um bairro, de uma cidade, de um estado, de um país e de um mundo mais igual somente pode acontecer por caminhos que passem por educação de qualidade para todos. Apenas assim teremos a possibilidade de que todos nós brasileiros — mas todos mesmo: mulheres, homens, negros, amarelos, brancos, indígenas, pardos, pobres, ricos, jovens, idosos — sejamos tratados igualmente, como gente, como seres humanos. Pelo menos, na FECAP, temos orgulho de há mais de um século oferecer essa possibilidade!

 

Miriam Vale_DSC0145 – Doutora e mestre em administração de empresas, na linha de Estudos Organizacionais da Fundação Getúlio Vargas. Concluiu graduação em Administração pela Universidade de São Paulo (USP) em 2007, sendo que passou um ano em intercâmbio estudando na Universidade de Maastricht e Universidade de Coimbra. Atuou em empresas privadas de telefonia celular e bancos. Atualmente é professora na graduação da FECAP, onde também atua como Curadora do Acervo Histórico.

Comentários

Comentários

Previous Post
blog01_la_vie_en_rose

La vie en Rose...

  Dia desses, me peguei tendo umas boas lembranças de um passado nem tão distante assim... Morei por quatro anos na cidade (linda!) de Ribeirão ... Read more

Next Post
blog_acervo

João andou mais de 100 km para mudar de vida

Qual o esforço que você faria para chegar até a FECAP? Ok, tudo bem! Sabemos o quanto é difícil pegar transporte público lotado nos horários ... Read more

Deixe uma resposta